domingo, 10 de fevereiro de 2013

As bases americanas na Alemanha e a base ouro


Por Antal E. Fekete [*]

A Alemanha não é nem independente nem soberana, apesar das pretensões habituais. Ela tem tropas americanas no seu solo por razões inexplicadas e inexplicáveis após a retirada de todas as tropas soviéticas há quase 25 anos atrás. Igualmente significativo é o facto de que a fatia do leão da reserva ouro alemã esteja sob a custódia americana. Se o Bundesbank pediu a repatriação de uma parte simbólica daquele ouro durante um longo período de tempo, podemos considerar como garantido que isto foi feito sob instruções americanas. Mas por que os americanos pediriam ao Bundesbank para requerer o retorno de uma parte do ouro alemão armazenados na "segurança" dos porões do Federal Reserve Bank of New York na parte baixa de Manhattan? Certamente não porque os porões estejam cheios de ouro americano e eles tenham de arranjar espaço para mais. É tudo grande teatro. Há uma agenda oculta que tem de ser camuflada. O melhor meio de fazer isso é montar um show. O público fica fascinado por imagens com tramas de ouro de bancos centrais.  Uma razão, talvez a principal para este exercício, é que os administradores do sistema de moeda fiduciária (fiat money) global estão a preparar-se para a próxima confrontação decisiva, a cortina final sobre o que há alguns anos atrás chamei de The Last Contango in Washington. Por outras palavras, os decisores políticos estão a preparar-se para (ou a tentar defender-se da) a permanente escassez backwardation ) nos mercados futuros de ouro de todo o mundo que está a ameaçar rasgar em pedaços o actual e desgastado sistema de pagamentos mundial que repousa na fé (make-belief). A multa por atraso contango ) é a condição normal dos mercados futuros de outro quando o preço spot do ouro está com um desconto em relação ao preço de contratos futuros. O contango demonstra que está disponível muito ouro para satisfazer a procura actual. As pessoas estão confiantes em que promessas de entrega de ouro serão honradas. A condição oposta à situação de contango é chamada de escassez (backwardation) que se verifica quando os preços futuros perdem o seu prémio em relação ao preço spot e ficam menores. No mercado de ouro esta condição é altamente anómala porque, face a isto, permite aos comerciantes ganharem lucros sem risco. Eles vendem ouro spot com um prémio e compram-no de volta com um desconto para entrega futura. Contudo, lucros sem risco são efémeros uma vez que a própria acção de comerciantes os eliminará instantaneamente. O que isto sugere é que escassez permanente de ouro nunca poderia acontecer pela própria natureza do caso. Mas sem o conhecimento do público geral um perigo muito grande está a surgir, perigo semelhante a um que não ameaçava o mundo desde o colapso da parte ocidental do Império Romano há mais de 1500 anos atrás. Este perigo, se se materializar, marcaria o fim da nossa civilização e princípio de uma nova Idade Média (Dark Age).Estou a falar acerca da ameaça do súbito e completo colapso do comércio mundial. Isto seria anunciado pela escassez permanente de ouro, algo que alegadamente nunca poderia acontecer. Directamente nos seus calcanhares seguir-se-ia o colapso do sistema de pagamentos em dólar. O comércio por trocas (barter),naturalmente, começaria entre países vizinhos, mas o comércio mundial tal como o conhecemos desapareceria junto. O indicador pelo qual a viragem do contango para a escassez (backwardation) poderia ser medido é chamado a base ouro. É o prémio sobre o preço do ouro para entrega futura de acordo com o contrato que o acompanha relativo ao preço spot. Portanto a base ouro negativa é equivalente a escassez. Mal se passaram uns 40 anos de história de orientação pela base ouro, porque não havia comércio organizado de futuro de ouro antes de a América incumprir suas obrigações internacionais de ouro em 15 de Agosto de 1971. O comércio de futuros começou com uma base ouro robusta. O contango estava no seu pico. A base ouro não pode ser mais elevada do que o pleno encargo de armazenagem (carrying charge) (também conhecido como o custo de oportunidade de possuir ouro, cujo principal componente é o juro). Mas bastante cedo a base ouro começou a erodir-se e a erosão continuou até hoje. Isto foi um processo agourento e que foi ignorado por todos os políticos, economistas e jornalistas financeiros. O desvanecimento da base ouro é ainda mais curioso uma vez que tem estado a acontecer contra o pano de fundo de um avanço constante no preço do ouro. Os manuais de teoria económica ensinam que um avanço no preço sempre e em toda a parte chama novas oferta. Contudo, os manuais de teoria económica são impotentes quando se trata de ouro. Para o ouro, o verdadeiro é exactamente o oposto: um avanço no preço faz a ofertar contrair; e um avanço muito grande pode fazer a oferta desaparecer totalmente. A razão para este paradoxo é que o ouro é um metal monetário. Toda a difamação do ouro por economistas pagos por governo não alterará este facto. Nesta altura o declínio foi tão longe que a base ouro é praticamente zero, com ocasionais afundamentos em território negativo. A academia evita ostensivamente investigar a base ouro, pretendendo que ela tem tanta relação com a economia mundial quanto a base para carcaças de porcos congelados. O público é mantido na ignorância total. Mas só se pode ignorar a base ouro correndo perigo. Trata-se do único indicador disponível que mostra a deterioração progressiva do sistema de moeda fiduciária. Como é bem sabido, em toda a história nunca houve um experimento com êxito de moeda fiduciária. E nem foi por falta de tentativas. Todos estes experimentos ou foram abandonados quando governos esclarecidos decidiram retornar a divisa a uma base metálica, ou acabaram em fracasso absoluto provocando tremendo sofrimento económico para o povo quando a moeda fiduciária estava a perder rapidamente todo o seu poder de compra. A implacável contracção da base ouro significa que o ouro disponível para entrega futura está a desaparecer rapidamente. O ouro está constantemente a mover-se para mãos fortes que o agarram e não o abandonarão mesmo em face de altas de preços abruptas. Finalmente a oferta de ouro secará e a escassez esporádica dará lugar à escassez permanente. As minas de ouro recusam-se a receber papel-moeda pelo seu produto. Se quiser ter ouro, terá de recorrer ao barter. Escassez permanente significa que a confiança na divisa fiduciária em papel e nas promessas do governo de pagar evaporaram-se. Afinal de contas, considerando a sua origem, notas de banco irresgatáveis são nada mais do que promessas desonradas de pagar ouro. Uma vez estilhaçada a confiança, todos os cavalos do rei e todos os homens do rei não podem juntar Humpty Dumpty outra vez. A escassez permanente é como um buraco negro. Não há caminho para dele sair. Nem mesmo um raio de luz pode escapar das suas garras. Eis como os buracos negros ganharam sua fama. "Escassez permanente" não é um nome tão sugestivo como "buraco negro", mas mesmo assim pode devorar a economia mundial. A base ouro é afim à eficiência do dinheiro de suborno. A princípio o suborno é aceite sem se fazerem perguntas. Mas quando se torna uma característica regular do comércio de ouro, a sua efectividade é perdida. No fim o suborno é recusado quando se percebe que o objectivo é trapacear o proprietário e retirar-lhe a sua posse de ouro. Um sistema de comércio construído sobre o suborno é um castelo de cartas. Ele é desonesto. Depende do engano e de tramas falsas. Isto traz-me de volta à reserva ouro alemã. Como a escassez esporádica em ouro torna-se cada vez mais frequente, os cavalheiros responsáveis pelo andamento do sistema mundial de moeda fiduciária ficam alarmados. O único meio de pacificar o mercado é libertar cada vez mais ouro de bancos centrais. Ouro físico. A besta deve ser alimentadas. O ouro de papel não o fará (mas, naturalmente, estes cavalheiros continuarão a tentar inundar o mercado com ele). Libertar ouro americano directamente do Fed para os mercados de futuros está fora de causa. Isso confirmaria a suspeita, já desenfreada, de que o dólar é um colosso com pés de barro sustendo-se com água até os joelhos. Assim, deixem os estados clientes da América fazerem a libertação. Os alemães têm a reputação de favoráveis à divisa forte. Eles estão relutantes em aderir à "corrida para a base" das divisas. A Alemanha é a escolha natural para alimentar mercados futuros de ouro num esforço para proteger o dólar contra o último assalto que está a perfilar-se. Durante muito tempo a América tem estado a torcer o braço de outros países, incluindo o Reino Unido e a Suíça, fazendo-os vender centenas de toneladas de ouro do banco central, ao passo que a América não estava a vender nem uma onça. "Faça como eu digo, não como eu faço!" Durante todo este tempo a Alemanha tão pouco estava a vender. Era mantida a aparência de que esta decisão foi tomada na Alemanha. Não foi; ela tem, ao invés, a marca "made in USA". O ouro alemão é a última defesa do dólar. Por esta altura praticamente todos os bancos centrais ignoram o canto de sereia da América. De vendedores eles se tornaram compradores de ouro. De acordo com o plano mestre americano a Alemanha é a última fortaleza [a impedir] a desintegração do sistema global de moeda fiduciária. A Alemanha não falhará: é para isso que se mantêm tropas americanas no solo alemão. A Alemanha cumprirá obedientemente a tarefa de alimentar com ouro os mercados de futuros num esforço para defender-se da escassez permanente. A repatriação de uma parte a reserva de ouro alemã é um balão de ensaio. Se os mercados ficarem com medo e verificar-se pânico de vendas antes de o Bundesbank começar a vender, então muito melhor. Mas se a trama falsa fracassar e a marcha do mercado mundial de ouro rumo ao entesouramento privado continuar constante, então deixem o Bundesbank, não o Fed, sangrar ouro. O ouro da América deve ser poupado apesar de todos os riscos. 

Sobre tais truques e enganos está fundamentado o sistema monetário internacional. 

Qual é, portanto, a solução? Como pode ser impedida a morte súbita do comércio mundial? Felizmente, ainda há políticos erectos. Godfrey Bloom do Parlamento Europeu, deputado pelos círculos de Yorkshire e North Lincolnshire no Reino Unido, sugere que a Alemanha deveria repatriar TODO o seu ouro e reinstaurar um marco alemão ouro. 

A causa subjacente da crise financeira mundial é dívida desenfreada. O ouro é o único extintor final de vida. A partir da sua expulsão do sistema monetário internacional a dívida total no mundo só pode crescer, nunca contrair. Para travar o crescimento canceroso da dívida o ouro deve ser reinstaurado na sua antiga posição como o guardião da qualidade de dívida. 

Se, em desafio dos desejos americanos, a Alemanha tomar a iniciativa de criar um marco ouro e abrir a Cunhagem Alemã ao ouro em que todos os que se apresentarem possam converter seus lingotes de ouro em moeda de ouro, o curso da história mundial será mudado. Seria o mais admirável momento da Alemanha. A civilização terá sido salva e o arranque da nova Idade Média impedido. O marco-ouro poderia circular lado a lado com o euro e dólar irresgatáveis. Deixem as pessoas decidirem se querem ser pagas em divisas fiduciárias tendentes à crise ou, talvez, se preferem a estabilidade da moeda de ouro respeitada pela sua antiguidade. Não há dúvida do que seria a escolha das pessoas. 

A iniciativa alemã porá em funcionamento uma reacção em cadeia de actos virtuosos semelhantes por parte dos principais bancos centrais do mundo, a fim de impedir a depreciação fatal das suas divisas contra o marco-ouro. Este tornar-se-á a divisa mais cobiçada do mundo para comércio internacional. O sistema financeiro será salvo do suplício das desvalorizações competitivas de divisas e do efeito corrosivo de défices governamentais sempre em expansão. Governos serão forçados a enfrentar a realidade e viver responsavelmente dentro dos seus meios como toda a gente. Agricultores já não serão pagos para não cultivar a terra e trabalhadores fisicamente aptos para não trabalhar. O desemprego juvenil, em particular, será coisa do passado.

Há um precedente. Em 1948 a Alemanha desafiou a força ocupante quando criou o Deutsche Mark sem se aborrecer a pedir permissão em Washington. 

Mas não será o padrão tendente à deflação? Na década de 1930 o padrão ouro internacional entrou em colapso por causa disto mesmo, não foi?

Como disse o pai do Deutsche Mark, Wilhelm Röpke (1899-1966): não foi o padrão ouro que fracassou, mas aqueles a cujos cuidados estava confiado. 
28/Janeiro/2013

Ver também: 

  Histeria no mercado de ouro , Michel Chossudovsky
  O ouro e o "fim do mundo" , Valentin Katasonov

[*] Nasceu em Budapeste, Hungria, em 1932. Matemático e cientista monetário. Em 1958 foi nomeado professor assistente de Matemática e Estatística na Memorial University de Newfoundland, Canadá e em 1993 reformou-se como Professor Titular. Em 1974 fez uma palestra sobre ouro no seminário de Paul Volcker na Universidade de Princeton. Posteriormente, foi investigador visitante (Visiting Fellow) no American Institute for Economic Research e editor sénior da American Economic Foundation. Em 1996 o seu ensaio, Para que o ouro? (Whither Gold?), que se encontra emhttp://www.fame.org/htm/Fekete_Anatal_Whither_Gold_AF-001-B.HTM , ganhou o primeiro prémio no concurso internacional sobre divisas patrocinado pelo Bank Lips, da Suíça. Durante muitos anos foi perito em vendas e hedging de barras de ouro de bancos centrais, e os seus efeitos sobre o preço do ouro e da própria indústria da sua mineração. Dedica-se agora a escrever e fazer palestras sobre reforma fiscal e monetária, com ênfase especial no papel do ouro e da prata no sistema monetário.
No sítio web do jornalista Lars Schall consta também esta entrevista do prof. Fekete: " Gold: Permanent Backwardation Ahead! " 

O original encontra-se em www.larsschall.com/2013/01/28/american-bases-in-germany-and-the-gold-basis/

Este ensaio, traduzido com português de Portugal, encontra-se em http://resistir.info/.

Ferreira Gullar


Será arte?


Escrever um poema, pintar um quadro, fazer um filme, uma peça de teatro, uma composição musical, enfim, fazer o que se conhece como obra de arte, sempre requer do autor o domínio de um "métier", de uma linguagem própria a cada um desses gêneros artísticos, além, é claro, do talento, sem o qual aquelas outras condições não adiantam de nada. Pode ser que me engane, mas estou convencido de que a pessoa nasce poeta, ou pintor ou cozinheiro. Sem o domínio do ofício, ninguém vai adiante, mas o que torna aquele saber fazer uma obra de arte é o talento, que não se aprende no colégio. Mas o talento não está por sua vez desligado dos recursos técnicos que tornam possível a realização da obra. Noutras palavras, quem nasceu com a vocação de pintor logo se identifica com o primeiro belo quadro que vê. Não apenas o acha belo: deseja criar algo dentro daquele universo; as cores, as formas, a expressão nascida delas são algo que o fascina e atrai. Não estou inventando nada. Da Vinci, Goya, Caravaggio, Monet, Picasso, todos eles, ainda meninos, desenhavam e sonhavam em se tornar pintores. O mesmo se dirá de tantos outros artistas dos mais diversos gêneros. Enfim, o que pretendo afirmar aqui é que o artista é artista em função da linguagem estética com que se identifica e que decide assimilar, dominar, reinventar. Sem linguagem não há obras de arte. Por isso mesmo, a arte se manifesta por meio de diversas linguagens, que são intraduzíveis uma na outra: o que a pintura diz, a música não diz, o que a poesia diz, a pintura não diz. Os significados existem nas linguagens, nascem delas, são elas. Cabe então perguntar: pode existir arte sem linguagem? Esta é a questão que se coloca em face do que se chama hoje de arte contemporânea, caracterizada precisamente por não ter linguagem, isto é, neste caso a obra não nasce da elaboração de signos e formas constitutivos de um universo expressivo, dentro do qual o artista cria. Não, nesse novo tipo de arte, um mesmo artista poderia propor, como obra sua, casais nus num museu, urubus numa gaiola ou um tubarão cortado ao meio. Como não foi ele quem fez os casais, nem os urubus nem o tubarão, a sua obra consiste apenas em uma ideia que lhe ocorreu. Daí também a designação de arte conceitual (o que, aliás, é o contrário da natureza das artes, seja música, pintura, escultura, intraduzíveis conceitualmente). Pelo fato mesmo de não surgir da elaboração de uma linguagem, esse tipo de manifestação pode se valer de toda e qualquer coisa para realizar-se. Tornou-se conhecida uma tal "obra perecível" de um artista latino-americano, que consistiu em prender um cão numa galeria de arte e deixá-lo morrer de fome e sede. Mas, muito antes e depois dele, outras manifestações se tornaram conhecidas, feitas todas com o propósito de chocar o espectador. É certamente difícil admitir como criação artística uma mulher que se deixa filmar enquanto alguém faz incisões em seu clitóris. Citei estes exemplos mais radicais porque são representativos de uma atitude que desconhece toda e qualquer norma ou limite. Parecem pretender ilustrar a célebre boutade de Marcel Duchamp "será arte tudo o que eu disser que é arte". Certamente, pode alguém, sem ater-se a normas consagradas da arte, criar obra de grande beleza e expressividade. No entanto, esse exemplo mesmo comprova que, para alcançar tal nível expressivo, necessita possuir qualidades que a distingam do comum das coisas. Aquela frase de Duchamp é uma boutade antiarte, uma vez que em nenhum outro campo da atividade humana tal afirmação seria admitida como verdadeira, já que tudo o que o homem realiza se distingue por suas qualidades específicas. Ninguém aceitará, como verdadeira, a afirmação de que "será grande craque de futebol quem eu disser que é grande craque", nem tampouco que "será poesia tudo o que eu disser que é poesia", "será ciência tudo o que eu disser que é ciência". Não obstante, no terreno das artes plásticas, aquela frase dita para chocar --visando negar o convencionalismo que sufocava a arte-- tornou-se uma máxima que justificaria a negação dos valores estéticos.

Ferreira Gullar é cronista, crítico de arte e poeta. Escreve aos domingos na versão impressa de "Ilustrada", da Folha de S. Paulo

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Jayr Dezolt

Associação livre

Do mesmo modo que hoje escrevo, amanhã falo e descrevo. Depois que me despeço, volto a despedir-me e ajudo a despedir de novo. Para que falo, para que ouço, se não me calo e não me toco. Deslizo devagar, mas ininterruptamente, sem esperar a resposta porque perguntas não fiz. Devolvo a angústia parada na garganta e vejo que ela persiste, embora mais suave, porém presente. Descubro a saída, mas não a uso. Receio o novo caminho, porque só conheço o velho. Mais tarde mudo de opinião e tento de novo. Não sinto nada mais que uma nova emoção, a emoção de tentar e descobrir que o novo é bom. Vivo outra vez a estranheza do inusitado e quase não me dou conta de que estava apenas repetindo uma experiência anterior. Foi como sonhar acordado e sentir um sonho acabado, sendo apenas um sonho. Busquei a luz e vi a escuridão ao longe, porém ameaçadora. Agressiva em sua forma, em seu cheiro, sua bruma, seu mistério e em sua impenetrabilidade. Prefiro o clarão, mas constato que ele é tão escuro e impenetrável quanto o é a escuridão. Às vezes cega, igual ao que se passa com a escuridão. Associo o frio à escuridão e, com o frio, mais a temo. Fascina-me o esplendor do céu. A qualquer hora. Agrada-me o céu nublado, seja de nuvens brancas ou negras. Neste último caso, sinto-me como se estivesse protegido, abrigado, no útero materno. Com as nuvens claras me vem a emoção da beleza inaudita. O horizonte, às vezes, me desperta uma saudade ou melancolia incompreensíveis. Transporto-me, parece, a um outro plano da existência. “Desligo-me”, ou sou desligado, por segundos, do plano “normal”, alçando-me a uma outra dimensão, a qual não sei explicar, apenas sentir. Os ventos. Eles me trazem uma certa tristeza, até mesmo quando são agradáveis ao corpo, à face, aos cabelos. No frio intenso do inverno, os ventos me parecem “mortais”, avivadores das feridas, das tristezas e das melancolias, que teimam em não cicatrizar, em permanecer!

Jayr Dezolt é funcionário aposentado do BC. Pai e esposo dedicado à família. Amigo sincero. Cidadão brasileiro exemplar e, como modestamente gosta de dizer, alma poética “sem compromisso”.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Jânio de Freitas

Riscos no ambiente cinzento


Intenção do procurador-geral para momento de apresentar denúncia contra Calheiros é insondável em um inquérito de tipo corriqueiro

Pela segunda vez em meio ano, parte significativa do Congresso pode acusar interferência do Judiciário. A anterior foi atribuída ao Supremo Tribunal Federal, ao marcar o julgamento do mensalão coincidindo com a campanha eleitoral. Agora é do Ministério Público, também vista como desrespeito à independência dos Poderes. No caso atual, a acusação refere-se à denúncia criminal feita ao Supremo pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, contra o senador Renan Calheiros. A reação não foi causada pela denúncia em si, já esperada, mas por ser feita menos de uma semana antes da eleição em que o denunciado era candidato favorito à presidência do Senado. A intenção de Roberto Gurgel é insondável. Mas a hipótese adotada a respeito pelos políticos, de que tentava demolir o favoritismo de Calheiros, não é implausível. Roberto Gurgel teve dois anos e meio para apresentar a denúncia. Quem deixou passar tanto tempo poderia muito bem esperar uma semana mais. A explicação dada por Gurgel para a esquisita demora da denúncia não precisa de hipóteses: nos dois anos e meio, disse ele, esteve muito ocupado com o mensalão. A assessoria do procurador-geral e os quadros da Procuradoria da República ficam mal na explicação, sem no entanto merecerem esse descaso. E, além disso, o inquérito de Calheiros nada tem de especial ou nebuloso, é de tipo corriqueiro nos Ministérios Públicos -notas fiscais falsas, para disfarçar recebimentos inconfessáveis de dinheiro, mais falsidade ideológica e peculato. No mínimo, Roberto Gurgel pôs em prática, outra vez, uma falta de sensibilidade que não perde ocasião de se manifestar, mesmo que seja apenas uma entrevista momentânea. Os ânimos entre Congresso, Supremo e Procuradoria-Geral da República já eram bastante ruins. Quase todos os discursos na sessão que elegeu Renan Calheiros para a presidência do Senado, na sexta-feira, lançaram indiretas fortes, contra as interferências de que os congressistas se queixam há anos. Gurgel agravou o que já era ruim. E assim surgiram dois riscos. Um vem da representação existente no Senado contra Roberto Gurgel. Estava adormecida, mas pode ser despertada, e não foi outra coisa que Fernando Collor indicou em discurso, aliás, considerado seu objetivo, bem-feito. Não convém esquecer que, assim como é necessária a aprovação dos senadores para a nomeação do procurador-geral, também lhes cabe o poder de destituí-lo. O outro risco é a possível incidência do mal-estar na decisão sobre sobre o direito, ou não, dos procuradores e promotores de realizar investigações. De um lado, a pressão das polícias obtém adesões contra o reconhecimento do direito. De outro, exemplos externos juntam-se a situações internas no apoio aos procuradores e promotores. Caso, entre vários, das três procuradoras da República em São Paulo que desvendaram a corrupção na obra do novo Tribunal Regional do Trabalho paulista. As três mosqueteiras conseguiram até a destituição e prisão do juiz Nicolau dos Santos Neto, o Lalau, um resultado raro para membros do Judiciário. Vários casos, entre eles o do próprio Calheiros e os recursos do mensalão, vão confrontar Judiciário e Ministério Público com segmentos expressivos do Congresso. Cada um justifica, desde logo, um sinal amarelo no ambiente cinzento.

Seletiva

O Supremo e os tribunais superiores são lugares de grandes confortos, para não falar dos luxos. Mas nem as cadeiras especialíssimas que se sucediam foram a capazes de atenuar o intenso senta-levanta do ministro Joaquim Barbosa durante o julgamento do mensalão. Parece que a cadeira de presidente fez algum bem até às suas costas ou ancas, porque deixou de ser preciso trocá-la a cada vez que o ministro, a intervalos bem maiores, ficou de pé. Mas a administração do STF deveria estudar outras cadeiras. Longe do tribunal, não o vemos pela TV, mas podemos saber que o ministro pode ficar nas cadeiras de cinema e outras sem precisar levantar-se.

Jânio de Freitas é jornalista, colunista do jornal Folha de S. Paulo

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Adriano Benayon

Tirania financeira 

 Michael Hudson, professor da Universidade Misouri-Kansas, escreveu excelente artigo, “O enganoso abismo fiscal dos EUA em 2012”. A enganação diz respeito a que o déficit orçamentário não precisaria existir (mas existe) e às suas reais causas. 

2. Ele está em US$ 14 trilhões, o equivalente a quase um PIB anual dos EUA e menos que seu governo gastou para salvar os bancos. Nouriel Roubini aponta que o recente acordo entre Obama e parlamentares do partido “republicano” prenuncia novo colapso, pois prevê reduções fiscais, e não há como abrir mão de receitas tendo que cobrir um déficit dessa magnitude. 

3. Os economistas do sistema clamam que, para reduzir os déficits públicos, há que: 1) cortar despesas sociais, obrigando os trabalhadores a financiarem seus planos de saúde e aposentadorias; 2) fazer que o Estado deixe de investir nas infra-estruturas econômicas e sociais; 3) demitir servidores; 4) privatizar as propriedades e os serviços públicos. 

4. O Brasil seguiu, mais de uma vez, esse caminho, o que intensificou os malefícios da desnacionalização, encetada em 1954, e causa primordial de o País estar muito atrás de países, antes, muito mais pobres. O serviço da dívida e as privatizações acabaram de inviabilizar o desenvolvimento, de modo irreversível até que sejam substituídas as atuais estruturas econômicas e políticas. 

5. A Europa - desprovida de soberania - pois o Banco Central não emite moeda para financiar os países membros, arruína-se através das políticas de “austeridade”, que agravam a depressão a pretexto de reduzir os déficits públicos gerados pelo colapso dos derivativos. 

6. Os EUA só não estão de todo afundados, por empregarem a força para obrigar produtores de petróleo a vendê-lo em dólares e por emitirem-nos à vontade para pagar importações e o serviço da dívida. 

7. Os analistas não submissos mostram que os déficits não provêm das despesas sociais nem dos investimentos públicos nas infra-estruturas. Na verdade, os orçamentos do Estado foram onerados pelas operações de socorro aos grandes bancos, que ficaram em dificuldades quando os derivativos se revelaram títulos podres, após terem gerado lucros fantásticos para seus controladores. 

8. Em suma, a oligarquia financeira, dona desses bancos e de outras indústrias dominantes, comanda, através de títeres políticos, os governos das “democracias”, bem como os formadores de opinião em cátedras e nos meios de comunicação. 

9. Ela subordina a todos, por meio das políticas fiscal e monetária. Os 0,01% da oligarquia (incluindo executivos) são privilegiados por isenções fiscais e como credores, com o endividamento do Estado e de mais de 90% da população. 

10. Por isso não admitem que os Tesouros nacionais emitam moeda para financiar o de que precisa a economia. Criou-se a mentira – aceita como verdade – que isso seria inflacionário. O sistema exige que o próprio o Estado, endividado por ter socorrido os bancos, dependa do crédito deles. 

11. O cartel dos bancos, nos EUA, recebe dinheiro emitido pela Reserva “Federal” a juros de 0,25% aa, muito abaixo da taxa da inflação, e aplica em títulos especulativos e nos de países, como o Brasil e a Austrália, que se deixam tosquiar pagando juros elevados nos títulos públicos. 

12. Como assinalei em artigo, “No Limiar de 2013”, não interessa à oligarquia acabar com a depressão, que dela se serve para quebrar o poder e a resistência de quantos pretendam equilibrar a sociedade e promover seu bem-estar. 

13. O orçamento equilibrado é um dos instrumentos ideológicos para arranjar depressões. Falam da economia como se esta devesse ser gerida por quitandeiros ou políticos demagogos, na linha de Cícero (século I AC): “não gaste mais do que arrecada”. 

14. Michael Hudson recorda que as depressões coincidiram com períodos de superávit orçamentário. Este precedeu e/ou acompanhou as seis depressões iniciadas em 1819, 1837, 1857, 1873, 1893 e 1929. A atual, iniciada em 2007, é efeito retardado dos superávits de Clinton (1998/2001), postergada em consequência das bolhas da internet e dos imóveis residenciais, com inusitada explosão do crédito. 

15. Quanto mais obtém maior concentração de riqueza – reduzindo assim o poder relativo inclusive dos ricos fora do topo da pirâmide – mais a oligarquia se converte em tirania. 

16. Discordo de Hudson quando conclui que isso não é capitalismo, mas sim feudalismo. Na verdade, o capitalismo converte-se em algo pior que o feudalismo, porque nele não há limites à concentração. 

17. Quanto ao Brasil, lembrou, há pouco, Carlos Lessa, ex-presidente do BNDES: "Não estamos sequer reproduzindo a República Velha. Esta República atual praticamente universalizou a desnacionalização." 

18. Enquanto isso, o sugado povo brasileiro é distraído pelo “combate à corrupção”, como se essa não fosse sistêmica. Milhões indignaram-se com o mensalão e aplaudem o STF. 

19. Entretanto, até hoje, dormem, engavetados nos tribunais superiores, os processos em que foi provada a colossal roubalheira das privatizações (Vale Rio Doce, elétricas, telecomunicações, siderúrgicas, bancos estaduais), após terem esses tribunais cassado as liminares concedidas para sustá-las. Elas já completaram, impunes e consolidadas, quinze anos em média. 

20. Mais tragicômico: os atuais “governantes”, além de nada terem feito para mudar a triste estrutura formada conforme o Consenso de Washington, usam o BNDES e a política fiscal para cevar ainda mais os concentradores, principalmente transnacionais, que desviam renda nacional, em quantias crescentes, para o exterior. 

21. Isso é pouco para a mídia e demais alienados - antinacionais, desde antes do primeiro golpe contra Getúlio Vargas, 1945. Trabalham pela volta dos perpetradores do desastre em mega-doses. Mais: mesmo fora dos dois partidos ocupantes do Planalto nos últimos 18 anos, falta espaço, sob as instituições presentes, para lideranças capazes de oferecer alternativa real.

Adriano Benayon é Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo e Advogado, OAB-DF nº 10.613, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi Professor da Universidade de Brasília e do Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Autor de Globalização versus Desenvolvimento”.


terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Mali: palco da mais nova agressão imperialista


Soldado da legião estrangeira, da França, fantasiado de caveira, em Niono, durante invasão ao Mali

Por Hugo R C Souza   


O palco da primeira agressão imperialista no ano de 2013 é o Mali, república africana que se soma assim ao Afeganistão, Iraque, Líbia, Síria e outros países transformados em fronts das guerras movidas pelas potências capitalistas sob a bandeira não hasteada da repartilha do mundo, tendo em vista a profunda crise estrutural que corrói inexoravelmente o grande capital monopolista. A bandeira que se hasteia para fazer sombra aos reais motivos das "intervenções" imperialistas mundo afora é a do combate ao "terrorismo" ou a do combate ao tráfico de drogas — ou ambas, como no caso do Mali. A potência que assume o protagonismo da invasão da vez, a França, desembarca apressadamente suas tropas naquela nação não para libertar o povo, derrubar tiranos, defender a "democracia" ou patranhas do tipo, invariavelmente evocadas pela "comunidade internacional" para justificar suas investidas colonialistas, mas sim como que reivindicando algum "direito" sobre o Mali pelo fato de no passado, em tempos de um outro processo de partilha do mundo, na primeira metade do século XX, Paris ter exercido o papel de metrópole do atual território malinês, hoje semicolônia e no passado parte do Sudão Francês. Quando do início da invasão, havia-se passado apenas três meses desde que a França assinara um "acordo" com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (Cedeao) para encabeçar uma missão europeia que daria "apenas" treinamento com apoio logístico a uma intervenção no Mali promovida pelo bloco militar da Cedeao. Mas o "socialista" François Hollande não resistiu e mandou invadir, deixando cair a máscara muito mal costurada do homem de "esquerda" que colocava na cara sempre que criticava, apenas por questões eleitoreiras, o belicismo de Nicolas Sarkozy. No dia 15 de janeiro, apenas quatro dias após o início da invasão, Hollande anunciou que iria triplicar o número de soldados franceses no Mali. (...)

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Aposentados irão aumentar pressão para que fim do fator previdenciário seja votado


Os aposentados da COBAP (Confederação dos Aposentados e Pensionistas do Brasil) irão promover, a partir deste mês, vigílias constantes em Brasília, percorrendo os gabinetes das novas lideranças partidárias, do Senado e Câmara dos Deputados, com o objetivo de pedir apoio para que o fim do fator previdenciário seja colocado com urgência na pauta de votação. Nesta semana, os dirigentes da COBAP organizaram um encontro entre 25 de janeiro e 1º de Fevereiro para discutir as atividades da entidade para esse ano. Durante o planejamento, foi aprovada a intensificação da mobilização no Congresso Nacional. A extinção do fator foi adiada no final do ano passado e, desde então, o governo não demonstrou interesse em firmar um acordo com as entidades representantes dos aposentados. Ao contrário, a postura tem sido a de empurrar com a barriga. Segundo o Ministro da Previdência Social, Garibaldi Alves Filho, é possível que a votação do Fator Previdenciário fique apenas para 2015, uma vez que as discussões “esfriaram” e que há outros temas importantes na pauta do Congresso. Como vêm demonstrando os sindicatos e as centrais sindicais, fria deve estar a cadeira do gabinete do Sr. Ministro. No último dia 24 de janeiro, Dia Nacional dos Aposentados, centenas de aposentados fizeram manifestações em diversos estados levantando como principal bandeira o fim do famigerado fato. E no próximo dia 6 de Março, as centrais sindicais se organizam para levar milhares de trabalhadores a Brasília. Entre as principais pautas está o fim do fator previdenciário.

Dívida pública consome metade do orçamento


Embora considerada prescrita há anos, a dívida se transformou em mecanismo de transferência dos recursos públicos para o setor financeiro privado.
Por Gabriela Moncau

“Vemos a utilização do instrumento do endividamento público às avessas”, denuncia Maria Lucia Fattorelli. Ex-auditora fiscal da Receita Federal e presidente do Unafisco Sindical (Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal), Fattorelli adverte que, se o instrumento de endividamento do Estado seria para completar suas receitas, o que acontece é exatamente o oposto: o pagamento da dívida tem tirado dos cofres públicos, anualmente, quase metade de seu orçamento. Em 2011, a dívida pública absorveu R$708 bilhões, o equivalente a 45% do orçamento da União e, em 2012, a previsão orçamentária calcula que tenha sido em torno de 48%. A dívida, paga por todos os cidadãos brasileiros, já supera o valor de R$3 trilhões. De onde surgiu essa dívida? A quem ela está sendo paga? O que o povo brasileiro ganha com isso? Por que ela não para de crescer? Maria Lucia Fattorelli, formada em administração e ciências contábeis, ajuda a responder essas e outras questões. Desde 2000, ela integra o movimento Auditoria Cidadã, que investiga a dívida brasileira e pressiona pela realização de uma auditoria oficial, prevista na Constituição Federal mas nunca realizada. O movimento acaba de lançar um livro de estudos, “A dívida pública em debate”, com o objetivo de popularizar a discussão a respeito do tema, que, para eles, “é o nó que amarra o Brasil”.

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Fernando Collor volta a desmascarar atuação do procurador-geral da República


Em discurso no Plenário nesta terça-feira (5), o senador Fernando Collor (PTB-AL) voltou a atacar a atuação do procurador-geral da República, Roberto Gurgel. Collor chamou Gurgel de “chantagista, ímprobo e praticante de ilícitos administrativos e de crime de responsabilidade”. O senador lembrou que em 2012 fez vários discursos com denúncias contra Gurgel. Segundo Collor, o processo de crise e conflitos entre os Poderes da República está vinculado à conduta de alguns agentes, como Roberto Gurgel. Collor disse que, além de atitudes criminosas, o procurador-geral agora vem querendo interferir nos outros Poderes. Ele ainda acrescentou já ter apresentado sete representações nas instâncias de controle do Ministério Público e no Senado sobre a conduta de Gurgel. Collor disse ainda que Roberto Gurgel trabalha contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC)37/2011, que tramita na Câmara dos Deputados. Essa iniciativa demonstraria, na visão de Collor, a incoerência de Gurgel. A PEC limita a competência para a investigação criminal às polícias federal e civis dos estados e do Distrito Federal.
- Se de um lado ele quer garantir o direito de o Ministério Público investigar, por outro ele se recusa ser investigado pelo próprio Ministério Público – afirmou.
O senador afirmou que Gurgel solicitou a prisão imediata de réus - como no caso do mensalão -, sendo que os acórdãos dos referidos processos não haviam ainda sido publicados. Para Collor, houve ofensa ao direito, além de desprezo às leis do país e à inteligência. O senador criticou a demora de Gurgel em atuar em alguns processos e disse que causa “inquietude” a condução de denúncia, motivada por depoimento do publicitário Marcos Valério, contra o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Collor, há algo preocupante nesse processo “que ainda não se revelou completamente”.
Collor também informou que ingressará com mais uma representação no Senado para investigar a atuação de Gurgel em relação a um processo licitatório no Ministério Público Federal. De acordo com o senador, houve um pregão eletrônico para aquisição de 1,2 mil tablets, no valor de quase R$ 3 milhões, com “um direcionamento escancarado ao um dos concorrentes”. Além disso, o pregão ocorreu no dia 31 de dezembro do ano passado, às 16h, “ao apagar das luzes do órgão”.
- O que o Ministério Público faria se o fato tivesse ocorrido em outro órgão? – questionou.

Renan Calheiros

Na visão de Collor, o procurador geral também tentou interferir na eleição do Senado, ao apresentar a denúncia contra o senador Renan Calheiros (PMDB-AL), eleito nesta sexta-feira (1º) presidente do Senado, a uma semana da votação, depois de mais de anos em que o processo ficou estagnado. Collor disse que essas iniciativas provariam suas denúncias sobre a “prevaricadora conduta” funcional do procurador, como o vazamento de informações à imprensa e a atuação com “conveniência política”.
- O procurador geral vem querendo jogar o Poder Judiciário contra o Legislativo. O Senado não vai se mostrar submisso ao Ministério Público nem aos demais Poderes. Estamos respaldados pelo voto popular – declarou.

Jorge Viana

Collor ainda parabenizou o senador Jorge Viana (PT-AC), que como vice-presidente dirigia sua primeira sessão. Collor disse que era motivo de alegria ver o colega presidindo os trabalhos no Plenário. Ao abrir a sessão, Jorge Viana agradeceu a confiança dos colegas que votaram em seu nome “para tão honrosa função” e prometeu trabalhar para colaborar com o Senado.

Agência Senado
Confira a íntegra do pronunciamento, clicando aqui. Ou confira o vídeo a seguir. 


quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Mantida indenização à Tribuna da Imprensa por censura durante regime militar

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitou os recursos da União e da Editora Tribuna da Imprensa e manteve decisão da segunda instância da Justiça Federal quanto à fórmula de cálculo da indenização arbitrada em favor da empresa por atos de censura prévia cometidos ao longo de dez anos, no período da ditadura militar. O processo teve início há 33 anos. O jornal Tribunal da Imprensa foi publicado até 2008. Na fase de execução, União e editora recorreram dos valores fixados, que se referem a espaços em branco no jornal e à desvalorização da marca da publicação. No entanto, a Segunda Turma, seguindo voto do relator, ministro Castro Meira, considerou que não houve violação à coisa julgada no momento da liquidação de sentença. O Tribunal Regional Federal da 2ª Região (TRF2) podia, como fez, adotar conceitos próprios e informações contidas no laudo elaborado na fase de conhecimento, inclusive para definição da indenização dos espaços em branco e da desvalorização da marca.

A ação 

A ação de indenização foi ajuizada em 1979 contra a União e contra dois ex-presidentes militares, os generais Médici e Geisel. Eles foram excluídos do polo passivo da ação pelo extinto Tribunal Federal de Recursos (TFR).  A editora sustentou que por quase dez anos, de 1968 a 1978, aTribuna da Imprensa foi vítima da censura prévia, e durante dois anos e meio “foi publicado com largos espaços vazios, correspondentes a matérias relativas aos mais palpitantes assuntos da atualidade”. Pediu o ressarcimento dos danos morais. Em 1984, o juiz julgou a ação procedente e condenou a União a pagar à editora cerca de 336 milhões de cruzeiros, corrigidos, referentes a prejuízos sofridos com a queda da venda diária média do jornal (parte líquida da condenação). Condenou-a, também, ao pagamento da importância correspondente à desvalorização da marca e ao valor de todos os espaços em branco, conforme se apurasse em arbitramento (parte ilíquida da condenação). Conforme a sentença, a editora sofreu “pesados danos” em função da censura. O TRF2 manteve a sentença.  Na execução, foi realizada nova perícia e, em 2010, o juiz fixou o valor final da parte ilíquida em pouco mais de R$ 367 milhões, distribuídos entre valores dos espaços em branco, desvalorização da marca, honorários advocatícios e custas. A questão chegou ao STJ em dois recursos. 


Coisa julgada

Ao analisar o caso, o ministro Castro Meira observou que não tem razão a editora em suas alegações de violação à coisa julgada. Conforme o relator, nos termos da sentença que se executa, os danos relativos à desvalorização da marca e aos espaços em branco deveriam, apenas, ser aferidos por arbitramento, deixando o juiz de primeiro grau de se alongar sobre o assunto e de apresentar maiores detalhes quanto à forma, aos conceitos e aos critérios de apuração. O Código de Processo Civil dispõe que na liquidação de sentença por arbitramento, ainda que se exija a nomeação de perito judicial e a elaboração de laudo para auxiliar na apuração do valor devido, não há obrigação de o magistrado acolher as conclusões da perícia. “E assim foi feito, não havendo falar em consideração indevida de ‘outros elementos, inteiramente diversos daqueles estabelecidos na sentença de conhecimento’”, afirmou o ministro.

Bis in idem 

A União sustentou, em seu recurso, que o acórdão “não sanou a contradição existente ao reconhecer expressamente que a indenização pelos prejuízos operacionais (já fixada de forma líquida na sentença) e a indenização pelos ‘espaços em branco’ constituem bis in idem [dupla indenização pelo mesmo fato], e, paradoxalmente, arbitrar esta última verba indenizatória”.  Entretanto, o ministro constatou que, no acórdão do TRF2, ficou consignada apenas “a mera possibilidade de que poderia ocorrer um bis in idem, não que efetivamente exista”. 


Saiba mais sobre a sacanagem:









segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Adriano Benayon: "Eleições nos EUA e no Brasil"

EUA

Analistas qualificados dos EUA confirmaram o que sabemos: havia pouca diferença entre os dois candidatos à presidência. 

2. Mais de 90 milhões de eleitores não compareceram, e parcela importante dos que votaram preferiu Romney, mais radical que Obama, em militarismo e desprezo pelos direitos sociais dos estadunidenses e pelos direitos humanos dos povos massacrados pela política imperial.

3. Ambos estão a serviço da oligarquia financeira, que inclui o complexo industrial militar e as mega-empresas de energia (entre outras)  concentradoras de ganhos absurdos e destruidoras do meio-ambiente.

4. Como assinala Paul Craig Roberts,  Obama e Romney posicionam-se a favor do prosseguimento da política intervencionista dos EUA, notadamente no Oriente Médio, e da confrontação militar contra a Rússia e a China.

5. Nem o “democrata” nem o “republicano” questionam as leis e medidas, instituídas por Bush e pelo próprio Obama, que  significaram rasgar a Constituição dos EUA, ao suprimir as garantias do Estado de direito aos alvos da repressão política, estrangeiros e nacionais, inclusive as dezenas de milhões de estadunidenses vítimas da depressão econômica.

6. Essa é a “democracia” do país que emprega a força militar, bem como a corrupção, sob a direção dos serviços secretos, para intervir em todo o mundo a serviço da oligarquia predadora,  acusando os países visados  de não ter regime democrático e de desrespeitar os direitos humanos ou o meio-ambiente.

7. De modo semelhante, embora mais discreto, agem o Reino Unido,  outro líder do sistema imperial, e os coadjuvantes, membros da OTAN. Em todos, os bancos e as corporações transnacionais controlam o Estado.

8. Onze anos de guerras imperiais e políticas econômicas que tudo permitem aos grandes bancos e transferem para eles dezenas de trilhões de dólares, oneraram os EUA com fabulosos déficits orçamentários. Esses – lembra Roberts – resultam em hiperinflação e na perda de posição do dólar como divisa mundial.

9. Esse privilégio é altamente prejudicial para o  Mundo, e todos se beneficiariam com o fim dele. Os próprios EUA, privados do parasitismo, passariam a cuidar de sua infra-estrutura deteriorada e a investir mais produtivamente, em vez de exercerem pressões militares para coagir os países exportadores de petróleo a vendê-lo por dólares e fazer guerras destruidoras contra os que resistem a essa imposição.


Brasil

10.  Tivemos eleições municipais, nas quais  as qualidades de um candidato a prefeito e a nulidade ou perversidade de outro podem fazer diferença. Nas eleições à presidência da República, a probabilidade disso é praticamente inexistente, porque a importância da política federal leva o sistema de poder a afastar candidatos propensos a mudar as coisas.

11. Dilma é um pouco menos alinhada com o império que os políticos do PSDB. Entretanto, a continuação dela também implica que a situação do Brasil prossiga deteriorando-se.

12. O mesmo não se dá na Argentina, Equador e Venezuela, países nos quais os atuais mandatários têm dado passos na direção da autonomia nacional, enquanto as oposições são totalmente caudatárias do império.

13. O Brasil apresenta um dos maiores descompassos do mundo, entre o potencial e o que realiza, porquanto a política econômica é ditada por transnacionais estrangeiras e bancos. Não, pelos interesses nacionais.

14. O extraordinário potencial do País, notadamente a dotação de recursos naturais, fez com que as potências imperiais atuassem intensamente para inviabilizar o desenvolvimento econômico e social, além de promover a destruição da cultura e da educação.

15. Nos raros períodos em que o Brasil caminhou para o desenvolvimento, as potências imperiais, EUA à frente, desestabilizaram e derrubaram os governos, como os de Getúlio Vargas em 1945 e em 1954.

16. Vargas foi extremamente clarividente nas medidas econômicas e  chamou gente competentíssima para assessorá-lo. O prosseguimento de suas políticas teria levado o País ao progresso econômico e social. Além disso, conquistou grande apoio popular.

17. Entretanto, faltou-lhe força de vontade ou de percepção política, ao dar  espaço aos agentes de sua desestabilização, promovida pelas potências hegemônicas.

18. Ele se havia composto com os EUA no contexto da Segunda Guerra Mundial. Não havia como não autorizar as bases norte-americanas no Nordeste, que, do contrário, seria invadido, pois o País carecia de poderio militar, sequer de longe, comparável ao das potências.

19. Vargas cometeu o erro desnecessário de enviar tropas para combaterem na Itália, fazendo improvisar a Força Expedicionária, que lutou bravamente, mas subordinada a uma divisão dos EUA.

20. Envolvidos pela interessada “amizade” dos estadunidenses,  oficiais brasileiros adotaram a ideologia prevalecente nos EUA. Esses lideraram a facção militar atuante nos golpes de 1945, 1954 e 1964.

21. Acusado de ditador, Vargas tolerou, mais que devia, os abusos, inclusive ilegais, de opositores, ávidos de poder a qualquer custo, como Carlos Lacerda, grandemente difundidos pela mídia comprada por dinheiro externo.

22. Além disso, consciente da influência política e econômica dos interesses estrangeiros, pôs no governo, na tentativa de aplacá-los, gente que, como João Neves da Fontoura, contribuiu para desestabilizar o presidente.  Permitiu, ademais, que militares nacionalistas fossem alijados, em vez de neutralizar os partidários dos EUA.

23. As conquistas da Era Vargas começaram a ser destruídas, de 1946 a 1950, com Dutra na presidência. De novo, desde agosto de 1954, teve andamento, não mais interrompido,  o favorecimento às empresas transnacionais.

24. A calamitosa gestão de FHC (1995-2002) concluiu o processo de destruição da Era Vargas, com as escandalosas privatizações e a desestruturação do serviço público.

25. Antes, em 1985, Sarney, o primeiro presidente civil desde 1964, encontrou enormes dívidas externa e interna, cujos montantes haviam crescido absurdamente com a submissão do País às imposições dos banqueiros mundiais.

26. Além disso, quase todas as indústrias importantes já estavam sob controle das transnacionais, a nova classe dominante,  graças às doações e aos demais subsídios da política econômica.

27. Isso explica que o  poder econômico tenha tido êxito ao sabotar as medidas de Sarney favoráveis à população e que ele se rendesse,  entregando o ministério da Fazenda a um elemento da Federação dos Bancos.

28. Daí, favorecida por uma fraude no texto da Constituição de 1988, a sangria do serviço das dívidas aumentou assustadoramente. Em cima dela e da inflação, o descalabro acentuou-se sob Collor. Sobreveio o interregno inconclusivo de Itamar e a ruína cavada por FHC. Seguiram-se os petistas, conservadores do essencial das políticas desastrosas.

29. Ainda assim, a mídia entreguista quer a volta do PSDB, por ser mais radical. A mesma mídia que trabalhou para derrubar Getúlio Vargas, reforçada, desde 1968, pela VEJA.

Adriano Benayon é Doutor em Economia pela Universidade de Hamburgo e Advogado, OAB-DF nº 10.613, formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi Professor da Universidade de Brasília e do Instituto Rio Branco, do Ministério das Relações Exteriores. Autor de “Globalização versus Desenvolvimento”.