quarta-feira, 7 de abril de 2010

A tragédia com os irmãos cariocas é de origem antropogênica. Tem nome e sobrenome.

Por Said Barbosa Dib

Tragédias no Rio: Governos criticam moradias irregulares e tentam colocar a culpa na população, mas são obrigados a admitir que nunca fizeram nada para evitar


Pelo menos 102 seres humanos morreram em decorrência das fortes chuvas que atingiram o estado do Rio de Janeiro desde segunda-feira (05), destruindo famílias e torturando corações e mentes. Em “decorrência das fortes chuvas”, não. Corrijo: em decorrência da incompetência dos que deveriam governar e da conseqüente falta de infra-estrutura na Cidade Maravilhosa, por absoluta falta de investimentos e projetos. O levantamento prévio é do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil Estadual, divulgado na manhã desta quarta-feira (07). A maioria das vítimas morava em áreas de risco. Um pergunta: se são “áreas de risco”, porque o poder público permitia a ocupação? Porque, pergunto eu, o governo Lula tem capacidade para retirar populações inteiras de cidadãos roraimenses de suas terras, tem entusiasmo para deletar simplesmente municípios inteiros em Roraima (rica em minérios), para beneficiar meia dúzia de índios amestrados e aculturalizados, e não pode retirar cariocas pobres de “áreas de risco”? Espero uma resposta...
Aliás, as declarações do governador Sérgio Cabral (PMDB), do prefeito do Rio, Eduardo Paes (PMDB), e do próprio presidente Lula (PT), chamaram a atenção pela leviandade de seus conteúdos. Eles destacaram o perigo de se viver em áreas de risco, mas nenhum plano concreto de moradia popular para o estado foi apresentado até então. Por nenhum dos três patetas. Mostraram que nunca houve, não há e não haverá tão cedo qualquer projeto de urbanização para a cidade. Não estão preocupados em resolver efetivamente o problema das moradias irregulares nas encostas do estado. Estão preocupados, sim, em governar não para o povo do Rio, mas para as grandes empresas, os que se darão bem com eventos como a Copa e a Olimpíada, os estrangeiros e as transnacionais, enfim. Por outro lado, nenhuma organização dita “não-governamental e ambientalista” se pronunciou. Aliás, nunca vi qualquer manifestação dessa gente pedindo que se transformasse os morros e locais de favelas em bosques e que os seres humanos que nelas vivem tivessem moradias garantidas em locais seguros, sanitariamente viáveis, e, claro!, de fácil acesso. Estão preocupados com terras ricas em minérios e biodiversidade na Amazônia, mas jamais, em tempo algum, levantaram um dedo sequer pela situação sanitária das grandes metrópoles ou do estado degradante de cidadãos brasileiros nas encostas do Rio e de outras capitais. Malthusianamente, se preocupam com os miquinhos inúteis da Floresta Atlântica, mas nunca se manifestaram em favor dos moradores das favelas. Os ecoterroristas das classes média e alta que fazem parte de suas brigadas ecológicas só pensam nas comunidades dos morros quando querem fumar um “harmonioso e ecológico” baseado. E só. Ou alguém já viu um Greenpeace ou o um WWF da vida propor uma reforma urbana séria que retirasse aquelas pessoas dos morros cariocas, que os reflorestasse e que, lógico, colocasse as pessoas e suas famílias em bairros dignos e devidamente urbanizados? Não, estão preocupados apenas em congelar o desenvolvimento da Amazônia para garantir reservas futuras para os países já desenvolvidos, seus patrões. A verdade é que, se existissem investimentos públicos e uma política habitacional consistente, ninguém estaria em área de risco. E dinheiro há. Só de pagamentos de juros da dívida pública, para os especuladores de sempre (mais de 300 bi ano), daria para fazer uma revolução urbana no Brasil. Por outro lado, os governos federal, estadual e municipal são donos de uma série de terrenos no Rio Janeiro, mas os usam para fazer negócios, para especular, para conceder aos grandes empreiteiros, para concessões que envolvem muito dinheiro por fora..... E por aí vai. Se esses terrenos fossem usados para a construção de habitação popular, muitas pessoas teriam sido retiradas das áreas de risco há muito. E os canalhas que governam, como Eduardo Paes e Sérgio Cabral, ainda tiveram a cara de pau de declararem nos maiores canais de TV que a tragédia que infernizou uma vez mais a população trabalhadora do Rio de Janeiro foi culpa dela própria. Como se não pagássemos impostos justamente para que eles façam o que deveriam fazer ao se candidatarem: governar. A única culpa dos cariocas não foi jogar lixo nos bueiros, nem ocupar desesperadamente os morros. A única culpa foi terem votado, nos últimos cem anos, em pilantras como Cabral e Paes.

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