sexta-feira, 2 de outubro de 2009

José Sarney

Um cartão ouro

Ninguém tem a verdadeira noção da importância de possuir um cartão de crédito. Ainda mais se for Ouro. É que pessoa nenhuma se dá ao luxo de ler a documentação que o acompanha. Em primeiro lugar, você é distinguido com uma carta personalizada do presidente de um dos maiores bancos do Brasil e às vezes do mundo. Ele diz que está muito feliz por ter sido escolhido por você e lhe agradece com uma dádiva extraordinária: "Para comemorar a sua escolha, você acaba de receber o nosso cartão, que permite comprar em quase todas as lojas do mundo". Para concluir, manda-lhe mensagem carinhosa: "Parabéns. Poucos podem ter este cartão, especial como você."
Você descobre que pode comprar a prazo "desde que a loja" concorde, pode distribuir na família vários cartões, cada um podendo gastar o que quiser. Dinheiro é o que não faltará, basta que você o tenha, porque senão, ultrapassado o limite, você tem que pagar multas, juros e até pode ter cancelada a sua grande importância de ser Ouro.
O folder lhe diz que você agora, para sua "felicidade, passa a ter um grande companheiro de viagem", que assegura a você e a seu cônjuge e filhos menores de 23 anos a cobertura de um seguro contra "lesões corporais acidentais" no valor de US$ 250 mil, desde que tenha a "felicidade" de que seja "a única causa de falecimento ou desmembramento". Basta que sua passagem tenha sido comprada pelo seu cartão Ouro.
E detalha os outros benefícios de que você pode desfrutar e que serão pagos no prazo de 365 dias! Basta que você morra pelas lesões.
Mas: "Se você perder ambas as mãos ou ambos os pés, ou a visão de ambos os olhos ou voz e audição, ou um pé e uma mão, ou um pé ou uma mão e a visão de um dos olhos, terá a felicidade de receber do companheiro de viagem US$ 250 mil. Se você perder só uma mão, um pé ou a audição, recebe US$ 125 mil."
Se quiser ganhar algum dinheirinho, vá a um país radical, ponha o polegar onde não deve e ele será cortado, e o cartão paga US$ 62,5 mil pelo dedo.
Se você passar por uma guerra, ou um terrorista ou soldado lhe pegar, você chega de volta morto e liso. Mas o cartão oferece ajuda para devolver seu corpo ao país, desde, é claro, que você pague.
Realmente, nada mais importante do que o seu cartão de crédito. Otto Lara Resende, que era, como eu, muito amigo do Magalhães Pinto, brincando com ele, que lhe autorizava alguns papagaios no Banco Nacional, dizia: "Magalhães, você é meu amigo a 4% ao mês". Pois o nosso cartão companheiro de viagem é o máximo: nosso amigo a 14% ao mês. É como se desabafa no Nordeste: amigo assim, só na Baixa da Égua!

José Sarney foi governador, deputado e senador pelo Maranhão, presidente da República, senador do Amapá por três mandatos consecutivos, presidente do Senado Federal por três vezes. Tudo isso, sempre eleito. São 55 anos de vida pública. É também acadêmico da Academia Brasileira de Letras (desde 1981) e da Academia das Ciências de Lisboa

jose-sarney@uol.com.br

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