quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Bomba Atômica: o Brasil não pode ter capacidade de dissuasão? Qual a razão?

Brasil: novo imbróglio nuclear

(Alerta em Rede) Pode até ter sido coincidência, mas é no mínimo curioso que às vésperas da assinatura do que já está sendo considerado no exterior o maior acordo estratégico do período pós-Guerra Fria, tenha vindo à tona um novo entrevero entre o Brasil e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA). E não menos intrigante a atitude do Ministério das Relações Exteriores, em nada condizente com a da chancelaria de um País em vias de afirmar a intenção de adquirir uma capacitação militar compatível com as suas dimensões e relevância no cenário global.
O imbróglio, revelado pelo Jornal do Brasil de 6 de setembro, com uma reportagem bombasticamente intitulada "Brasil já sabe fazer a bomba atômica" (sem trocadilho), envolve a publicação do livro A Física dos explosivos nucleares, de Dalton Ellery Girão Barroso (Ed. Livraria da Física, São Paulo, 2009), no qual o físico do Instituto Militar de Engenharia (IME) descreve os processos físicos que fundamentam os artefatos nucleares e simula numericamente um deles, baseado na ogiva estadunidense W-87, de 300 quilotons (1 quiloton equivale a 1.000 toneladas de TNT).
O livro se baseia na tese de doutorado de Barroso, defendida no próprio IME, sobre o tema "Simulação numérica de detonações termonucleares em meios Híbridos de fissão-fusão implodidos pela radiação" e está disponível em qualquer livraria especializada em obras científicas, além de, parcialmente, no sítio Google Livros.
Segundo a reportagem, a publicação do livro provocou uma intervenção da AIEA e, como subproduto, um atrito entre o chanceler Celso Amorim e o ministro da Defesa Nelson Jobim. A agência teria simplesmente exigido ao governo brasileiro informações detalhadas sobre a metodologia utilizada por Barroso em seu trabalho, além de, nada mais, nada menos que o recolhimento do livro. De acordo com o jornalista Vasconcelo Quadros, a AIEA chegou a levantar a hipótese de que os dados revelados no livro eram secretos e só poderiam ter sido desenvolvidos em experimentos de laboratório, deixando transparecer a suspeita que o País estivesse efetivamente desenvolvendo pesquisas para a construção de artefatos nucleares.
Outro pretexto da agência - "um velho argumento das superpotências", nas palavras do jornalista - foi que a divulgação de equações e fórmulas secretas, restritas aos países detentores de arsenais nucleares, poderia servir ao terrorismo internacional.
A reação do Itamaraty, segundo Quadros, teria sido dúbia, com o chanceler Amorim sugerindo que o pleito da AIEA fosse atendido pelo menos parcialmente, ao que Jobim teria se oposto de forma categórica.
A repercussão do caso levou a Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional do Senado deve convocar Jobim e Amorim para explicar o caso, conforme disse ao JB o presidente da comissão, senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG). O próprio Barroso e um representante da AIEA também poderão ser convocados, segundo o vice-presidente da comissão, Geraldo Mesquita (PMDB-AC).
Outra intervenção inevitável foi a do aparato ambientalista, representado pelo Greenpeace, cujo diretor de Campanhas Sérgio Leitão foi entrevistado pelo JB ("Greenpeace vê revelação com cautela", 7/09/2009) para dar sua "abalizada" opinião a respeito.
Não temos conhecimento deste trabalho, mas vemos com preocupação esta possibilidade. Principalmente no momento em que o país assina um acordo com a França para a compra de submarinos nucleares e a renovação dos caças da Força Aérea. Quem garante que neste acordo de fornecimento de tecnologia, não esteja embutido o repasse deste tipo de tecnologia? Durante os governos Sarney e Collor havia um projeto secreto de armas nucleares. Inclusive uma área que serviria de testes na Serra do Cachimbo, no Pará, foi fechado quando a imprensa noticiou o programa, que na época era presidido pelo almirante Othon Luiz Pinheiro da Silva, atual presidente da Eletronuclear. Todos nós sabemos que construir uma usina nuclear ou um artefato atômico é somente uma questão de trocar a tomada.
Vale recordar que, em 22 de agosto, a multinacional "verde" já havia efetuado manifestações no Rio de Janeiro, São Paulo e Salvador contra o que chamou "acordo de transferência de tecnologia nuclear" da França para o Brasil. Mas deve-se ter em mente que semelhantes sandices não são decorrentes de uma eventual ignorância dos organizadores do Greenpeace, pois todos são profissionais muito bem preparados. Afirmar que a diferença entre um programa nuclear civil e outro militar é uma questão de "tomada" é parte de uma bem pensada estratégia propagandística para influenciar a opinião pública em geral, que, devido às proverbiais deficiências educacionais do País - principalmente quanto ao conhecimento básico de ciências -, coloca um submarino de propulsão nuclear na categoria de armamento nuclear.
Em reportagem publicada na edição de 8 de setembro, os jornalistas Vasconcelo Quadros e Leandro Mazzini entrevistam o ex-chefe da Casa Militar e do Gabinete de Segurança Institucional (Governo FHC), general Alberto Mendes Cardoso, e o ex-presidente da Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN), Rex Nazaré Alves, que coordenou o programa nuclear paralelo responsável pelo domínio do processo de enriquecimento de urânio pelo País, em uma das maiores façanhas tecnológicas de sua história. Ambos confirmaram o que já era sabido em círculos estratégicos, ou seja, que o Brasil detém todo o conhecimento da fabricação de artefatos nucleares. Mas, ao mesmo tempo, os dois ressaltaram os impedimentos constitucionais auto-impostos aos armamentos do gênero.
Entretanto, o mais intrigante em todo o caso é a atitude tíbia do Itamaraty, que pouco difere de outros episódios deploráveis da história recente da Casa de Rio Branco. Entre eles, a notória submissão aos ditames da "Nova Ordem Mundial" decretada pelo Governo Bush pai na década de 1990, que levaram os governos Collor e Fernando Henrique Cardoso a assinar uma série de tratados internacionais discriminatórios, como o próprio Tratado de Não-Proliferação Nuclear (TNP), o Regime de Controle de Tecnologia de Mísseis (RCTM) e outros - sem falar na aceitação passiva da agenda do movimento ambientalista-indigenista internacional. Ou a inconsistência vertebral explícita do então chanceler Celso Lafer por ocasião das pressões do governo dos EUA para a demissão do embaixador José Maurício Bustani da presidência da Organização para a Proibição de Armas Químicas (OPAQ), em 2002, quando Lafer chegou a justificar a inação do Itamaraty dizendo que o Brasil "não dispunha de excedentes de poder" para confrontar Washington.
Possivelmente, uma vez mais a atitude da chancelaria nacional está sendo orientada pela intenção de mostrar um "bom comportamento" quanto às regras hegemônicas em vigor no cenário global, para que isso não venha a prejudicar a desastrosa obsessão com um assento permanente no Conselho de Segurança das Nações Unidas. Desafortunadamente, trata-se do velho sonho de consumo do Itamaraty, que, como temos insistido, tem criado muito mais ruídos do que eventuais benefícios à estatura internacional do País, em especial no âmbito ibero-americano. E o pior é que a "autodisciplina" não tem ajudado muito, pois o Brasil tem sido alvo recorrente de restrições tecnológicas por parte de países como os EUA, envolvendo tecnologias que a superpotência considera de segurança nacional.

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    Como construir a sua própria bomba atômica

    O projeto de artefatos nucleares há muito deixou de ser segredo militar. Em 1964, preocupado com os riscos da proliferação nuclear além dos membros então declarados do "Clube Atômico" - EUA, URSS, França, Reino Unido e China -, o Pentágono engajou dois jovens doutores em Física, David Dobson e Robert Seldon, em um projeto ultra-secreto com o sugestivo nome "O Enésimo País". O objetivo era verificar se dois "amadores", trabalhando apenas com documentação de domínio público, seriam capazes de projetar um artefato nuclear. Designados para trabalhar no Laboratório de Radiação Lawrence Livermore, na Califórnia, sem acesso a quaisquer documentos sigilosos, Dobson e Seldon concluíram o desafio em 30 meses, produzindo o desenho de uma bomba de plutônio cuja potência foi avaliada em 12 quilotons, equivalente à que foi lançada sobre Hiroshima em 1945. A façanha da dupla foi recordada em um artigo no jornal The Guardian de 24 de junho de 2003 (Oliver Burkeman, "How two students built an A-bomb"). Quem preferir um relato mais técnico pode recorrer ao artigo do historiador Dan Stober no Bulletin of the Atomic Scientists de março-abril de 2003 ("No Experience Necessary") ou baixar da Internet o relatório desclassificado do projeto.
    Onze anos depois, um jovem estudante de graduação de Ciências Aeroespaciais da Universidade Princeton, John Aristotle Philips, repetiu o feito de maneira ainda mais surpreendente, pois além de ter levado apenas cinco meses, ele não tinha qualquer conhecimento mais profundo de Física e era um aluno medíocre, que estava prestes a ser jubilado por desempenho acadêmico insuficiente. Foi justamente para melhorar o seu coeficiente de rendimento que Philips propôs ao seu supervisor, o célebre físico Freeman Dyson, um projeto original: o desenho de uma bomba atômica. Dyson, um dos grandes cientistas do último meio século e um notório iconoclasta adepto de desafios, aceitou a proposta e deu sinal verde a Philips, embora não lhe tenha dado qualquer ajuda. Assim como Dobson e Seldon, Philips só teve acesso a documentos de domínio público e, como a dupla, ele optou por um projeto mais sofisticado, o de uma bomba de implosão. A bomba de implosão exige um mecanismo de detonação ultrapreciso para "implodir" uma contra a outra as duas semi-esferas de plutônio que provocam a reação nuclear em cadeia. O segredo do processo está nos detonadores simultâneos de altíssima velocidade (denominados krytons) e na "casca de explosivos" responsável pela implosão das semi-esferas. Depois de algumas tentativas infrutíferas de obter a solução do problema, para a qual necessitava do tipo exato de explosivos, Philips conseguiu a resposta simplesmente telefonando para um engenheiro especializado da empresa que os fabricava para o Pentágono, a DuPont, para quem inventou uma história para justificar a pergunta. O projeto de Philips não apenas se revelou funcional, como ele conseguiu a almejada permanência em Princeton (Sebastian Aulich, "The Threat of Nuclear Terrorism", The European Courier, 22/05/2006).
    Grande parte das soluções técnicas para o desenho foram obtidas por Philips no livro The Los Alamos Primer: The First Lectures on How to Build an Atomic Bomb (A cartilha de Los Alamos: as primeiras lições sobre como construir uma bomba atômica), do físico Robert Serber, que trabalhou no Projeto Manhattan durante a II Guerra Mundial. Philips comprou o livro por 25 dólares numa livraria de obras técnicas do governo (o livro teve uma reedição em 1992 pela Universidade da Califórnia em Berkeley).
    Posteriormente, como a história acabou vazando para a imprensa, Philips ganhou uma breve notoriedade como "o garoto da bomba atômica". Embora o seu relatório final tenha sido classificado e parte do seu material de trabalho confiscado pelo FBI, ele escreveu depois um livro sobre o caso com seu colega de quarto David Michaelis, intitulado Mushroom: The True Story of the A-Bomb Kid (Cogumelo: a verdadeira história do garoto da bomba atômica). Ambos os livros podem ser encontrados sem dificuldade em livrarias virtuais.
    Se um estudante de graduação pode produzir um desenho funcional de um artefato nuclear tendo acesso apenas a documentação aberta, numa época em que a Internet como a conhecemos não era imaginada sequer por autores de ficção científica, qualquer físico do gabarito de Girão Barroso pode repetir a façanha sem ser incomodado pelos zelosos inspetores da AIEA, ou sem que um estudo acadêmico seja considerado tema de relevância pela diplomacia nacional. É óbvio que sem o acesso ao necessário material físsil (plutônio ou urânio enriquecido a 95%) e a itens sofisticados como os krytons, que não se encontram à venda em lojas de ferragens, qualquer projeto, por mais sofisticado que seja, terá apenas importância acadêmica.
    Com propriedade, o senador Flávio Torres (PDT-CE), físico de formação, considerou ridícula a intervenção da AIEA e sintetizou: "O Brasil não pode se intimidar diante desse tipo de pressão."
    Esperemos que a mensagem seja devidamente recebida pelo Itamaraty.

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