Os males da Democracia

Preliminarmente é preciso condenar esse tipo de expediente, de gravar denúncias e espalhá-las aleatoriamente e indiferente às instituições do Estado de Direito encarregadas da recepção e apreciação de todo tipo de irregularidades e ilegalidades da vida social e no exercício da função pública. Tais mecanismos permitem juízos de valor apressados, conclusões quase sempre açodadas e, o que é pior, não dá aos acusados o direito imediato de defesa, explicações e argumentações que possam eventualmente esclarecer e elucidar a gravidade das insinuações em jogo. Além disso, qualquer que seja a denúncia e sejam quais forem as circunstâncias, elas - sempre - deverão estar consubstanciadas em provas para que não sejam confundidas com revanchismo, ressentimentos pessoais ou retaliação oportunistas sob o calor das pulsões ou vibrações passionais.
Esses cuidados se reforçam quando estão envolvidos membros das famílias das pessoas, esposa e filhos... E quando entra em jogo a intimidade, a imagem e a honra do cidadão, seja ele um desempregado na fila do Serviço Nacional do Emprego ou um alto mandatário da gestão pública, no caso o governador, cuja autoridade se escora no fato dele representar a própria sociedade que governa, daí a única razão de um tratamento diferenciado e – por sua delegação popular – mais respeitoso. É bem verdade que a Constituição Brasileira de 1988 privilegiou a liberdade de expressão em detrimento da defesa da honra, mas deu particular anteparo à proteção da reputação individual através de sanções civis, nos casos em que a pessoa ofendida seja um funcionário público ou uma pessoa pública ou particular que se tenha envolvido voluntariamente em assuntos de interesse coletivo.
E na ótica desse mesmo interesse coletivo é que devem ser mobilizadas as instituições públicas, as procuradorias e ministérios públicos criados por esta mesma Carta Magna para zelar pelo rigoroso cumprimento dos expedientes legais. São elas, as instituições, o lugar e a garantia do império da Lei, para receber, apreciar e providenciar os respectivos desdobramentos cíveis e penais da ação jurídica. O resto é retaliação, perseguição pessoal, revanchismo e oportunismo dos confrontos amorais e imorais que precisamos identificar, desconstruir e eliminar no jogo objetivo e legal das relações sociais. Custou muito a algumas gerações da qual me orgulho de fazer parte a conquista da Democracia, uma estrada que precisa de constantes reparos em sua permanente pavimentação, mas que não comporta a exceção do retrocesso ao obscurantismo, da coação e da chantagem seja em que direção for. Para os males da Democracia só resta o caminho do fortalecimento institucional, ou seja, mais Democracia.
Zoom-zoom
· A campanha das águas – O novo prefeito de Manaus deveria ser chamado de prefeito H2O, a constituição molecular da água, um tormento cotidiano para mais de 200 mil famílias de Manaus, situada co centro da floresta tropical amazônica, onde abunda mais de 20% da água potável do planeta. Os candidatos se revezam em defesa e ataques para a gestão do problema. E o que menos se vê é a conjunção de propostas e condições concretas de resolução do problema no curto prazo.
· Lula na ONU – É muito difícil na limitação de tempo e de espaço que um discurso nas Nações Unidas impõe analisar a crise que se abate sobre os mercados, especialmente o financeiro, a partir dos Estados Unidos. Apesar disso, o presidente do Brasil deu seu recado e disse que a crise é política descreve a desigualdade escabrosa entre os países centrais e os periféricos e exige uma intervenção substantiva nos mecanismos sorrateiros de especulação dos mercados. O dedo do Brasil esbarrou na ferida global.
· Pobreza juvenil – Dados da pesquisa domiciliar do IBGE continuam trazendo a radiografia do constrangimento social e da distribuição vergonhosa da renda no país. A última constatação é que os jovens representam a faixa da população que mais sofre com a pobreza no Brasil. Enquanto 30% dos brasileiros são considerados pobres (pessoas que vivem com rendimento mensal familiar de até 1/2 salário mínimo "per capita"), entre as pessoas de 0 a 17 anos este percentual é de 46%.
· Distribuição perversa - Isso significa que a distribuição no Brasil, uma das mais escandalosas do mundo, não tem data nem política para mudar no curto e médio prazo da distribuição da riqueza nacional. Os jovens que vivem com rendimento mensal familiar de mais de 5 salários mínimos são apenas 1,7%. Essas revelações sombrias estão na Síntese de Indicadores Sociais, pesquisa realizada pelo IBGE e são piores do que aqueles anotados há 10 anos, em 1998. Uma tristeza!
(*)Belmiro Vianez Filho é empresário e membro do Conselho Superior da Associação Comercial do Amazonas.
belmirofilho@belmiros.com.br
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