
Ao tentarmos interpretar as questões globais da atualidade, defrontamo-nos com um conflito maior que, cada vez mais, se destaca entre tantos outros. Constatamos que, além da dissolução das tradicionais fronteiras temáticas – entre política, cultura, ciência, economia e meio ambiente – somos colocados diante de uma ruptura de limites éticos. Em um ambiente complexo como o da atualidade, estamos interconectados de tal forma que as abordagens simples e segmentadas não são suficientes para explicar a realidade. Por outro lado, o risco de nos perdermos nessa complexidade é cada vez maior.
A velocidade com que as informações são produzidas e disseminadas no mundo atual vem tornando relativas a ética, a moral e a ideologia. Essa relativização começa pelo lugar-comum, nos dias de hoje, em que se afirma não haver existido antes, na história da humanidade, uma época em que as pessoas fossem tão bem informadas. Trata-se de uma verdade relativa. Há diferenças importantes entre informação e conhecimento. E, a cada dia, diminui-se o tempo necessário para se transformar as uvas da informação no vinho do conhecimento. Não se trata apenas de ficar desinformado pelo excesso de informação. Trata-se, também, da perda de referência ética, moral e ideológica que está em questão.

Teoricamente, essas informações poderiam ser coletadas, sistematizadas e disseminadas para constituir a base da participação da sociedade na construção do seu futuro. Acontece que esse conjunto de ações é cada vez mais difícil de ser executado, por conta do volume de informações disponíveis, por causa da superficialidade de tratamento e análise, em razão da criação e destruição acelerada de estereótipos, mitos e teorias.
Tudo isso produz uma sociedade atordoada que, no limite, perderá a crença em qualquer forma de utopia, substituindo sonhos por cinismo. O processo já está em curso. A superexposição da violência, a banalização do roubo e a sistematização da vulgaridade compõem o atalho para que o ato de esticar a ética, justificando cada um dos seus atos, por mais condenáveis que sejam, se torne uma “qualidade” individual.

Em resumo, o personagem do ator Aaron Eckhart diz que tal tarefa faz parte da educação e, por isso mesmo, é dever dos pais. Mas, lavar as mãos e deixar que as campanhas na mídia façam esse trabalho é, convenhamos, bem mais cômodo. “Obrigado por fumar” pode parecer, pelo título, uma apologia ao consumo de cigarros. Não é. Comédia de humor negro, o filme propõe uma reflexão acerca de nossa sociedade atual, especialmente no que se refere à ética. Ao longo do roteiro baseado no livro de Christopher Buckley, trafega a “culture of spin" – a cultura de manipulação das informações.


Talvez o grande mestre estivesse sendo otimista, pois o que se vê na sociedade atual é uma ética flexível que redefine cínica e diuturnamente os conceitos de capacidade e necessidade. Talvez o seu proverbial humor não resistisse a denominar estes tempos de “A Era da Chiclética”.

A ética elástica funciona como uma cama de acrobatas. Fugindo dos fatos assustadores que apontam para a necessidade de uma mudança no supremo domínio do mercado, os ginastas da ética se apropriaram, sem pudor algum, do conceito de sustentabilidade. Na Câmara Municipal do mais remoto município brasileiro, o quinto vereador à direita da porta tem o mesmo discurso do ilustre orador de Davos. Desenvolvimento sustentável é o mote, tão flexível quanto um elastômero de última geração.

Nos extremos desta era podem ser identificados dois exemplos que elastecem as utopias atuais, sonsas e dissimuladas como um olhar de Capitú para “O Capital”. A China e a África sob o Saara, dois mundos à parte, representam axiomas da “Chiclética”. A China? É um grande mercado, um tigre gigante e digno de admiração irrestrita. Não possui água, solo agricultável e matérias-primas para sustentar seu crescimento. Mas é o objetivo estratégico das grandes estruturas financeiras e industriais do planeta. No grande chiclete, ela se desenvolve primeiro e se sustenta mais tarde, quando o Deus Mercado der bom tempo. A África? Não é um mercado, certamente por culpa de sua incompetência atávica. Por isso mesmo, les médecins sans frontièrs são bastantes para sustentá-la, já que seus habitantes não conseguem um desenvolvimento capaz de iniciar um processo que crie necessidades compatíveis com a indústria da satisfação. Desenvolvimento sustentável, nesse caso, é não morrer.
Ivan Dutra Faria
Consultor Legislativo do Senado Federal
Área de Meio Ambiente
Consultor Legislativo do Senado Federal
Área de Meio Ambiente
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