

Depois de traçar todo um raciocínio que leva o leitor a crer que o que importa nesta história toda é apenas a mansão do banqueiro, o site diz ter ouvido o senador Sarney nos corredores do Senado, afirmando: “Sarney disse que, quando foi presidente, entre 1985 e 1990, tentou proteger os bens essenciais à sobrevivência das pessoas. Mas negou qualquer atitude para beneficiar o amigo Edemar Cid Ferreira. Ele disse que ´a impenhorabilidade alcança a casa própria, os salários e os objetos de trabalho, como as máquinas. As pessoas ganham a vida com aquilo. O presidente foi alertado de que poderia ter essas conseqüências`”.
Mas, lembrou: “Sarney atacou o sistema financeiro, acusando-o de fazer pressão para que a casa própria e os salários sejam penhorados.

Na verdade, a matéria do “Congresso em Foco” está um tanto quanto desfocado. E peca ou pela má fé ou pela ingenuidade. É ser por demais simplista achar que Sarney, com sua longa e bem sucedida carreira política, iria queimar sua credibilidade para salvar a casa de um amigo. O senador conhece e convive com todos os banqueiros brasileiros e é natural que tenha amizade com eles. Tem amigos também entre artistas, esportistas, sindicalistas e todo tipo de gente. Por outro lado, os inocentes jornalistas que fizeram a matéria não pararam para pensar direito. Não levantaram a hipótese de que o que menos importa para um banqueiro falido e espertalhão é sua mansão, mas a grana que provavelmente está nos paraísos fiscais nestes tempos de descontrole cambial. Na verdade, o que está em jogo na advertência que Sarney fez ao Presidente Lula sobre as implicações do que seria aprovado em 2006, contra os bens de família, é a situação da classe média diante da usura estrutural e institucional dos bancos.
Para melhor compreender a questão, sugiro que os amigos leiam a matéria abaixo que publiquei na época do veto de Lula. Confiram:
Lula, Sarney e a classe média
Por Said Barbosa Dib*


Em nome do mito de que há a necessidade em se obter “investimentos” estrangeiros, os tecnocratas do governo federal procuraram atingir novamente conquistas históricas da população. O método: mais uma vez tentaram estuprar direitos adquiridos, como fizeram com a “Reforma da Previdência”. O alvo: a classe média, sempre ela, endividada, atolada numa cultura consumista estimulada pela mídia, há muito sobrecarregada por tributos extorsivos e arrocho salarial, prejudicada pela não-atualização da tabela de imposto de renda e submetida a reajustes injustificáveis e criminosos de planos de saúde, energia elétrica, telefonia, etc.; e que tem que pagar juros no cheque especial na faixa de 160% ao ano e, no cartão de crédito, 200%.
A bola da vez foi com uma importante lei de 1990 – criada pelo então presidente José Sarney – que determina que a casa do devedor é algo impenhorável. Queriam alterar também o “Código Civil”, que estabelece que é proibida a penhora do salário do devedor. Sarney havia criado o direito à impenhorabilidade da casa própria, o bem da família, inovando no que seria também incorporado à Constituição: o princípio de que a propriedade deve ter um fim social e que se deve ter um limite existencial para a família diante dos abusos dos credores.
Depois da contundente reação de José Sarney, no plenário do Senado, o presidente Lula se mancou e decidiu vetar os dois artigos da “lei de execução de dívidas” criticados pelo senador do Amapá. Para se compreender melhor a lambança, os dois dispositivos vetados do projeto foram elaborados pelo Ministério da Justiça, sob exigência da plutocracia financeira internacional e com respaldo da equipe econômica - lógico! -, sempre preocupada em tirar surpresas desagradáveis de sua “caixinha de maldades” contra a população brasileira. Na avaliação dos tecnocratas do governo, o projeto poderia “estimular os investimentos” no País ao dar mais segurança às operações de crédito. Em outras palavras, beneficiaria, mais uma vez, a agiotagem dos bancos e das financeiras em detrimento de direitos constitucionais da classe média.
Ou seja, seguindo o raciocínio desses senhores, que tentam fazer isso com a instituição “Família”, em nome da necessidade em se acabar com a inadimplência, daqui a pouco vão propor a penhora também da Amazônia, do Pantanal, da Mata Atlântica, se o Brasil não pagar seus compromissos com o sistema financeiro internacional.


Atlas da Nova Estratificação Social do Brasil”: diagnóstico sobre a classe média
Mas a postura corajosa do senador Sarney foi importante por dois motivos fundamentais: primeiro, colocou em pauta a necessidade das forças políticas responsáveis participarem mais efetivamente das decisões do presidente Lula, para fazerem frente às diabruras gestionadas nos gabinetes dos tecnocratas da área fazendária. Ou seja, à frieza cruel e desumana dos agentes de Wall Street encastelados nos ministérios, há que se contrapor à percepção política dos representantes eleitos pelo povo. Lula precisa se livrar dessa gente.
Daí a importância do apoio do PMDB ao novo mandato de Lula; em segundo lugar, a pressão de Sarney colocou em debate a necessidade de a classe média ser vista com mais atenção neste segundo mandato de Lula, pois, vem perdendo mobilidade social, paga a maior parte dos impostos e gasta cada vez mais com serviços que, teoricamente, o Estado deveria fornecer. O resultado dessa conjunção de fatores é que este segmento da população, que na definição convencional engloba as classes A e B (de 2.000,00 a 12.000,00 reais), excluindo os extremamente ricos, é hoje o mais insatisfeito da pirâmide social brasileira.
Uma semana depois que o senador Sarney conseguiu que o presidente Lula contivesse as diabrites de seus tecnocratas contra a classe média, coincidentemente, saiu a divulgação do estudo denominado “Atlas da Nova Estratificação Social do Brasil - Classe Média - Desenvolvimento e Crise”, que mostra que a criação de empregos e a evolução da renda da classe média no primeiro mandato do governo Lula foi amplamente negativo.
No início da década de 80, a classe média correspondia a 42,53% da população brasileira. No começo deste milênio caiu para 36,03%, ou seja, 12 milhões de brasileiros migraram forçadamente para as classes inferiores, uma vez que a década de 90 foi de estagnação econômica. Entre 2002 e 2004, na faixa de dez ou mais salários-mínimos, onde se situa parte considerável dos integrantes da classe média, houve um recuo de 10,6% nos postos de trabalho com carteira assinada naquele período. Hoje, o filho da classe média não consegue emprego para reproduzir o mesmo padrão dos pais.



A “Nova República” e o “Tudo pelo Social”


Classe média forte, estabilidade política
Como o governo Lula tem por base a questão social, nada mais lógico do que se inspirar na “Nova República” que, como se viu, teve um ótimo desempenho deste setor. Por isso, o presidente está certo em ouvir os conselhos de Sarney. Está certo em querer viabilizar uma “concertação” política com os ex-presidentes e querer governar com o PMDB, maior partido do Brasil. Somente assim terá como se impor diante da força dos tecnocratas xenófilos. No primeiro mandato, amarrado pela “herança maldita” do tucanato, Lula beneficiou os banqueiros, mas, diferente de FHC, quis atender também aos extremamente pobres com o “Bolsa Família”. Setor, aliás, que viabilizou a sua reeleição. Mas, teve que deixar a classe média a ver navios. Agora, Lula tem que estar atento a ela não só pela óbvia estabilidade política que o fortalecimento deste setor trás, mas, também, pela sua grande capacidade geradora de empregos, impostos e consumo, pois é responsável por aproximadamente 60% das vagas criadas pela economia e faz circular riquezas para as atividades que basicamente dependem dela, tais como: hotéis, agências de viagens, empregados domésticos, lavanderias, feiras, congressos, planos de saúde, serviços automotivos, restaurantes, construção civil, etc.. É da classe média que vem cerca de 62% da receita dos shopping centeres, 58% do setor de educação, 61% do setor automotivo, 60% do setor mobiliário, 50% da receita dos supermercados e do setor de telecomunicação. A classe média é responsável por 67% da arrecadação do imposto de renda e cerca de 70% dos impostos sobre o patrimônio.
Os legisladores e o Poder Executivo vêm tratando a classe média como um segmento privilegiado que deve cada vez mais contribuir para os cofres públicos. Mas, apesar de ser a galinha dos ovos de ouro dos sucessivos governos, a classe média não usufrui os serviços prestados pelo Estado, cuja inércia a obriga comprometer cerca de 102 dias/ano da sua renda para adquirir serviços privados (educação, plano de saúde, previdência privada...).
Os legisladores e o Poder Executivo vêm tratando a classe média como um segmento privilegiado que deve cada vez mais contribuir para os cofres públicos. Mas, apesar de ser a galinha dos ovos de ouro dos sucessivos governos, a classe média não usufrui os serviços prestados pelo Estado, cuja inércia a obriga comprometer cerca de 102 dias/ano da sua renda para adquirir serviços privados (educação, plano de saúde, previdência privada...).
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