
No dia 15 de março de 1968, há exatos 40 anos, manchete do jornal Tribuna da Imprensa anunciava: “Para salvar dólar, EUA tiram cobertura ao ouro”. A reportagem dizia:
Senado norte-americano aprovou ontem à noite o projeto de lei relativo à supressão da cobertura-ouro do dólar, enquanto que o Conselho da Reserva Federal aprovava o aumento da taxa de desconto praticada pelos bancos federais de 4,5% para 5%. Trata-se de medidas com caráter de urgência adotadas pelo presidente Lindon Johnson para contrabalançar a "explosão" do ouro na Europa, onde as vendas ontem ultrapassaram todos os recordes anteriores. Em Washington, informou-se que o presidente Lindon Johnson empregou ontem o "telefone vermelho" para pedir ao primeiro-ministro Harold Wilson que ordenasse o fechamento do mercado londrino de ouro durante o dia de hoje.
O Não-Sistema de Breton Woods e a hegemonia do dólar
Para se compreender a importância daquela decisão para os dias de hoje é necessário que se entenda que após a 2ª Guerra Mundial foi estabelecido o sistema de Breton Woods. Conforme acordo assinado em 1946, uma onça de ouro equivalia a 35 dólares, e, nessa paridade, a maioria das moedas foram atreladas ao dólar americano que, pela força político-militar dos EUA, ganhou o status de moeda mundial. Assim, qualquer dinheiro poderia ser convertido em dólares e resgatado em ouro, o que foi mantido até 1971, quando o Governo Norte Americano, pressionado pela inflação decorrente dos gastos com a Guerra do Vietnã e pelos gastos descontrolados por causa da Guerra Fria, rompeu unilateralmente o acordo. A arquitetura montada em Breton Woods acabava alí, devido a um defeito fundamental: a moeda internacional era a moeda de um país: o dólar. Políticos e técnicos que participaram dos debates de Breton Woods, como Lord Keynes, já tinham apontado para essa questão. Enquanto essa moeda fosse emitida de maneira moderada, haveria a possibilidade de ser aceita pelas outras nações como moeda internacional. Mas, os países industrializados do Ocidente, neste período, já haviam recuperado suas economia e viam na hegemonia do dólar um entrave às suas políticas econômicas. Por isso, apesar da prosperidade geral – e 1968 é um ano de grande crescimento, que dura até 1973 – os europeus começaram a contestar o papel do dólar na economia mundial. Os primeiros foram os franceses, alegando não estarem mais obrigados a aceitar o dólar como representante da riqueza real porque ele excederia o demandado para as trocas internacionais e pelos negócios financeiros. Viam o dólar - e os gastos dos EUA - como fator de inflação. O presidente De Gaulle, um nacionalista, pôs o dedo na ferida. Começou a trocar dólares excedentes pelo ouro de Fort Knox. Por isso, em 1971, Nixon declarou unilateralmente a inconversibilidade. Quer dizer, simplesmente, que deu calote em todo mundo, fato que geraria toda a situação de crise estrutural dos países da América Latina nos Anos 80 e 90, com as crises das dívidas externas e o processo de privatização/desnacionalização, respectivamente. Entre 1968 e 1971, na crise do dólar, começou a surgir o chamado Euro Mercado, com a criação dos petro-dólares. Ou seja, na falta de lastro-ouro, passou-se a considerar o petróleo como garantia de poder para a moeda norte-americana. Era um mercado monetário que se expandia fora do controle das autoridades – também produto dos excessos e do déficit da balança de pagamentos norte-americanos -, que punha mais dólar para fora do que os seus parceiros mais importantes estavam dispostos a absorver. Quando o Banco da Alemanha, um banco central conservador, tinha excedentes em sua balança de pagamentos, refluía esse excesso de dólares e o re-depositava no Euro Mercado. Este excesso servoiu para se criar linhas de crédito, a juro barato, para os países em desenvolvimento. Essa foi uma das razões do milagre brasileiro, pois o Brasil começou a se endividar em dólar rapidamente a partir da expansão desse mercado, cujas taxas de juros eram convidativas – a 6% ao ano. Mas, quando os norte-americanos declararam a inconversibilidade, em 1971, e permitiram a flutuação em 1973 (até então, as taxas de câmbio eram fixas e administradas pelo FMI, sendo preciso sua licença para a desvalorização de uma moeda), a conseqüência foi o início da flutuação das taxas. Esse foi um dos fatores que deflagrou o aumento do preço do petróleo, fixado em dólares. Portanto, não foram os conflitos do Oriente Médio (crises do petróleo) que geraram a crise econômica mundial, mas, o contrário, foram as crises financeiras vinculadas à questão do dólar não-lastreado que provocariam as crises deliberadas do petróleo. Durante toda a década de 70 houve grande controvérsia sobre a substituição do dólar como moeda de reserva, sendo feitas várias tentativas que se mostraram infrutíferas. Os Estados Unidos saíram da guerra do Vietnã derrotados política e militarmente. Foi um período em que se falava que a hegemonia norte-americana havia terminado, que seu poder estava no fim, que a Alemanha e o Japão iriam substituí-los e coisa e tal. Mas, na reunião do FMI em 1979, em Belgrado, os Estados Unidos impuseram novamente a hegemonia do dólar, que estava em xeque a partir dos interesses europeus. Os Estados Unidos forçaram a barra e valorizaram o dólar e fizeram um déficit fiscal. Reagan fez uma redução de impostos que favoreceu os ricos e a classe média mais alta. Depois de 1981/1982 começou a baixa na taxa de juros, abrindo um tremendo ciclo de consumo e de importações nos Estados Unidos. Japão, Coréia e Taiwan exportaram muito até 1985. O Japão conseguia superávites monumentais à custa dos déficits norte-americanos. O que permitia que os Estados Unidos fizessem isso, sem qualquer problema adicional de balança de pagamento, era o fato de terem o poder da moeda de reserva, podendo pagar o seu déficit em dólar, e todo mundo aceitava. Ou seja, eles tinham - e têem - a maquininha de fazer dinheiro.
O que mudou a partir dos anos 70 é que os Estados Unidos passaram a financiar o seu déficit emitindo papéis do Tesouro norte-americano, que funcionaram como uma espécie de colchão de liquidez. Quando ocorreu a crise da dívida externa na América Latina, devido ao aumento unilateral na taxa de juros, o déficit norte-americano fiscal permitiu que os bancos limpassem aqueles créditos podres latino-americanos. Em seu lugar, entraram títulos do governo norte-americano, pagando taxas de juros convidativas. Dessa forma, o déficit dos EUA salvou os bancos norte-americanos porque permitiu-lhes trocar ativos podres por outros com liquidez no mercado. Muitos acharam que, se os Estados Unidos estavam se endividando, iriam quebrar. Mas isso não ocorreu, pois os bancos privados estavam dispostos a aceitar aqueles papéis de dívida norte-americana em suas carteiras. Com isso, a dívida norte-americana funcionou como um mecanismo de transição para o sistema bancário. Se o governo dos EUA não tivesse feito um déficit durante o governo Reagan - e não tivesse emitido dívida pública - os bancos norte-americanos teriam quebrado. Os Estados Unidos salvaram o seu sistema bancário emitindo títulos da dívida pública e, ao mesmo tempo, se transformaram – de credores globais desde o final da I Guerra Mundial – em devedores globais (a dívida pública norte-americana, hoje, é de três trilhões de dólares).

A atual crise estrutural do dólar: calote global

A seguir, artigo meu, de 2003, que fala sobre o problema:
Em defesa de Bush Jr.
Em defesa de Bush Jr.
"Leão ferido dá mordeduras mais violentas" (Catão)
Por Said Barbosa Dib

Leitura adicional recomendada:
- Makhijani, Arjun, "Saddam's Last Laugh: The Dollar Could be Headed for Hard Times if OPEC Switches to the Euro."
TomPaine.com (May 9, 2001) - Beams, Nick, "Iraq, Oil, Dollars, Euros, and Dead Iraqis," Information Clearing House (February 2003)
Leia mais:
Entrevista com Said B. Dib, para o jornal "O Sul".
Euro come alternativa al dollaro. Se ne parla in altri mondiSecondo Said Barbosa Dib, professore di storia all'Università di Brasilia, le valutazioni fatte da quelli che conoscono i problemi strutturali del sistema ...www.lifegate.it/editoriale/articolo.php?id_articolo=229 - 27k -
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